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15/04/18 07:00 - Opinião

Eleições em tempo de guerra digital

Zarcillo Barbosa

A eleição presidencial de outubro será diferente. O inusitado é que não teremos mais as participações milionárias das empreiteiras no financiamento das campanhas. Os parlamentares se anteciparam aos efeitos da Lava Jato e trataram de aprovar medidas para assegurar dinheiro público. São R$ 1 bilhão e 700 milhões de recurso extra, mais R$ 900 milhões que já estavam no Fundo Partidário. O botim será rateado entre as legendas, conforme a representatividade de cada uma na Câmara. Ainda é pouco, comparando-se ao que foi gasto na última eleição de Dilma Rousseff. O grande embate da propaganda não se dará mais em montanhas de santinhos jogados nas ruas; muros pichados e cartazes em postes. A grande arena será a das redes sociais. Dos 144 milhões de eleitores aptos a votar, 122 milhões estão no Facebook, aqui no Brasil. Superpostos, são 50 milhões no Instagram e outro tanto o WatsApp e Twiter.

Será a primeira disputa eleitoral digital com recursos abundantes na rede. Significa poder impulsionar e direcionar mensagens aos eleitores por via eletrônica. O grave está na falta de regras para esse tipo de difusão. O Tribunal Superior Eleitoral, até agora não sabe - ou pelo menos não anunciou - como fará a fiscalização para assegurar transparência ao que for divulgado. Alguma coisa terá que ser feita para desencorajar a disseminação de notícias falsas. Mark Zuckerberg esteve no Congresso norte-americano para pedir desculpas sobre o vazamento de dados de cerca de 90 milhões de usuários do Face, que foram municiar o direcionamento da campanha que elegeu Donald Trump. O criador engolido pela criatura. O fato e o personagem real se aproximaram da ficção de Walt Disney, no clássico "Fantasia" (1940). Mickey Mouse abusa dos poderes do chapéu mágico, dá vida a vassouras e baldes para limparem a sala de Merlin e depois não sabe como parar a faxina e provoca uma inundação.

As redes sociais têm propriedades que não são controladas, ou mesmo percebidas pelas pessoas, dentro delas. Existem os que acham que comandam plataformas. São os aprendizes de feiticeiro. O Facebook envolveu-se no escândalo da Cambridge Analytica. Foi excessivamente liberal na maneira como permitiu que pessoas e organizações se conectassem a sua rede social. Sob a desculpa de municiarem "pesquisas", elas extraíram dados pessoais sobre preferências e valores de milhões de usuários. Os dados ajudaram a eleger Trump, como se sabe. A empresa Face, perdeu 36 bilhões de dólares de seu valor de mercado desde que o escândalo veio à tona, porque as ações despencaram na bolsa. Zuckerberg diz que já reforçou os controles, mas ainda não devolveu o chapéu do mágico a Merlin. Por via das dúvidas, promete dar um rapa na leitura de notícias (falsas ou não) e nos vídeos. Quer que os usuários voltem às interações com que começou. Ou seja, que eles fiquem conectados com as pessoas que amam, façam ouvir suas vozes e construam comunidades e empresas. Essa "mudança filosófica" não será nada fácil. As redes sociais viraram uma selva. Do lado de fora as pessoas agem como coelhinhos. No meio do mato viram tigres, leões e orangotangos. Querem dar vazão aos seus instintos selvagens ou narcísicos. O poder de racionalidade e reflexão é baixíssimo, com pitadas de sadismo - esse ladinho perverso do bicho-homem. Milhões querem a esquerda na cadeia, e outro tanto, que os coxinhas morram.

Nas eleições de outubro, os políticos brasileiros vão investir maciçamente na terceirização da propaganda digital. E não vão ter nenhum interesse em coibir "fake news" e robôs, já que o TSE também ainda não fez o dever de casa. Com a fragmentação política e muitos candidatos atacando uns aos outros, vai virar um inferno. Os robôs (chatbots) fazem a triagem inicial do público. Pesquisadores rastrearam 430 robôs que trabalharam em favor de Dilma (Veja). Criados no exterior? Os marqueteiros de Trump se utilizaram de rackers russos. Softwares de criação se encarregam de automatizar os envios de matérias tóxicas, capazes de influenciar e potencializar assuntos. Blogs, sites e páginas de jornalismo de opinião vão avolumar a avalanche de desinformação.

O Google tem investido bilhões de dólares em tecnologia de ponta, desde a sua criação, para conter aqueles que tentam burlar os sistemas com conteúdo engenhoso. Ainda não é tudo, mas é um exemplo a ser seguido. Os bem informados, pela imprensa profissional de qualidade, terão uma visão mais profunda sobre o funcionamento dessas máquinas destruidoras. Têm mais condições de separar o lixo do reciclável, pelo menos.





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