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13/03/18 07:00 - Opinião

Retrato em sépia

Maria da Glória De Rosa

Não há nada mais melancólico do que um retrato em sépia. Sabe aquela cor cinzenta acastanhada caminhando para um marrom escuro pendendo para o olíveo? Com certeza você deve ter visto muitos retratos com essa cor, remetendo-nos sempre a um passado nostálgico, depressivo, apático. É o tipo de foto que não traz alegria, pelo contrário. Induz a um estado de desinteresse, quando não de certa insensibilidade ou inconformismo.

É assim que vejo o Brasil de nossos dias. Como um retrato em sépia, meio acinzentado, escurecido incapaz de despertar qualquer sentimento de euforia, por menor que seja. Essa traiçoeira rotina dos séculos começou com o descobrimento do ouro e prosseguiu com o café, o cacau, o açúcar, a banana... até chegar à gloriosa era do petróleo. Lembra-se de Getúlio lambuzando as mãos no "ouro negro" e, posteriormente, sendo imitado por Lula e Dilma, exageradamente alegres, paramentados de macacões amarelos e brincando, como se o mundo uma troça fosse? Com as mãos reluzentes e enegrecidas sorriram para o cenário internacional, profetizando aquela que seria a fase mais horripilante de seus mandatos obscuros. E quem esperava por esplendores e cardápios suculentos, conviveu com momentos fugazes e glórias efêmeras, ao som de trombetas que anunciavam a decadência, a vergonha, a corrupção.

O que nos legaram essas falsas promessas, essa dança de Shiva? Lula e Dilma, travestidos de dançarinos, de reis da dança, fizeram do cosmos o seu teatro, onde foram atores e público ao mesmo tempo. Não pararam aí. Souberam fazer dessa parafernália uma atração de vários outros deuses, para que viessem contemplá-los. E foram pródigos. Abriram as torneiras para vizinhos eletivos, preferenciais e distribuíram benesses, dádivas, ajudas, vantagens e até sinecuras. Já que Shiva é representado por quatro braços, cabe bem a comparação dele com Lula e Dilma. Inconscientemente, deixaram para nós um retrato a quatro mãos, onde cada um quer ser mais lembrado que o próprio Shiva. Essas mãos benfazejas que, como Shiva dão abrigo às almas sofridas e cansadas.

Em 'As veias abertas da América Latina', o autor pergunta: "O passado é mudo? Ou continuamos surdos?" Continuamos desprezando o passado revelador de nossas misérias e surdos a tudo que nos aconteceu e continua acontecendo. Não queremos pensar, não desejamos ouvir. Preferimos sair pulando nos blocos de Carnaval, cantando como se a vida (especialmente a do brasileiro) fosse uma festa, berrando letras imbecis até ficarmos exauridos. A realidade não interessa. Sairemos à rua para saçaricar, não para reagir contra o statu quo. Somos comodistas demais para lutar por nossos direitos. Esperamos sempre que outros façam isso por nós. Para hoje temos pão, não interessa o amanhã. Não raras vezes, o silêncio assemelha-se à estupidez.

Assim, de quadro em quadro, vejo o álbum de fotos de meu país, sempre em sépia, sempre meio enfumaçado, amarelecido, nostálgico. Criamos mitos que só abrem a boca para enganar, para engodar. Pessoas que sequer sabem pensar, porém não perdem o páreo quando se trata de invencionice. Se fôssemos elencar as mentiras que Lula e Dilma fizeram com a história e a geografia deste país e do mundo, um tomo de mil páginas seria pouco. Por isso continuaremos sempre esse subBrasil, um país de segunda classe, de nebulosa identidade, dirigido por incompetentes, mentirosos, aproveitadores. O que Eduardo Galeano disse a respeito da América Latina, permito-me adaptar à nossa terra: "Nossa derrota sempre esteve implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir prosperidade alheia."

Por favor, me ajude a mudar o retrato deste país. Não suporto mais a cor esmaecida deste Brasil.Vamos colorir nossos rios, nossas montanhas, nossos prados. Vamos pintar com cores vivas e alegres nossos lares, as ruas de nossa cidade, os jardins, os edifícios. Vamos dar vida a tudo que a natureza nos legou e fingimos não ver. Vamos tirar o Brasil das mãos de incompetentes, charlatões, mentirosos contumazes, megalomaníacos confessos. Onde está sua capacidade de indignação? Levantemos o punho, mas como um democrata autêntico, e brademos contra a injustiça, a impunidade, as fake news. Nunca o Brasil foi tão inundado por amazonas de mentiras, de oportunismo, de vileza, de velhacaria, de escrotidão.

[...] "moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro. Quer identificar-se como destino e confundir-se com a eternidade." Essa frase também é de Eduardo Galeano. Mas, serve como uma carapuça para nós, não serve?

A autora é pedagoga, jornalista, advogada e professora doutora aposentada da Unesp - [email protected]





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