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13/09/17 07:00 - Opinião

Quem procura acha

Maria da Glória De Rosa

Nem sempre é verdade que quem procura acha, mas, às vezes, acaba achando. É preciso primeiro ver em quais circunstâncias você procura e o que está procurando. Eu, por exemplo, tenho a mania de garimpar livros, quando vou às livrarias e ao sebo e, não raras vezes, acabo encontrando coisas interessantes. Para falar a verdade, não gosto muito de sebos, por motivos higiênicos: livros que passam de mãos em mãos, com possíveis fungos, não me atraem muito.

Prefiro as grandes livrarias que, ao lado dos livros mais vendidos, expõem uns saldos de obras desalinhadas, que, jogadas em caixotões, ficam à mostra para os clientes, e podem ser reviradas à vontade. Dia desses, na Livraria da Vila, em São Paulo, encontrei algumas obras pelas quais me interessei. Uma delas era uma publicação de Saramago: folhas políticas, assim mesmo, o título em letra minúscula.

Bem, pensei, já tenho na minha biblioteca muitos livros desse autor, mas vou adquirir mais este, embora não concorde com suas ideias políticas. Curiosa, adquiri o livreto de 20 x 15 cm, de 246 páginas. Conheço muito bem o estilo desse português instigante, teimoso, caturro. Como, desta vez, ele escreveu sob a forma de artigos, pensados a partir de 1976, lá estão variados assuntos relacionados à política, a maior parte deles expondo seu viés comunista. José Saramago jamais deixa de ser brigão, patriota, defensor à sua maneira da terrinha e pouco amigo de quem lê por outra cartilha que não a dele.

Admitamos que nós também nos achamos sempre no direito de falar algumas "verdades" picantes sobre nossos políticos e sobre nosso país, mas não gostamos muito quando um gringo põe-se a atacar-nos. Nada escapa à pena de Saramago, não raras vezes molhada na ironia. Pois, não é que encontrei em folhas políticas uma conversa dele com um português que vive e trabalha em São Paulo, que lhe perguntou com sarcasmo, "que ao caso lhe parecia adequado": "Sabe você como já chamam os Brasileiros a Fernando Pessoa?"

Saramago esperou um pouco e acedeu a entrar no jogo: "Chamam-lhe grande poeta da língua portuguesa, pois então." O escritor compreendeu aonde o outro queria chegar: "Não dizem grande poeta português?" E o outro: "Cada vez se vai dizendo menos."

"Confesso que não gostei - disse Saramago. O meu patriotismo literário ofendia-se com a ligeireza, a sem cerimônia dos irmãos brasis, ou primos, que, não pensando, obviamente, em discutir ou ignorar a grandeza do poeta, decidiam escamotear-lhe a nacionalidade" etc. etc. Bravinho, continuou afirmando que isso "configurava forte abuso", que "o Brasil sofria de vertigem imperial" e mais: "por esse andar acabariam por levar-nos o próprio Luís de Camões, ou o Eça de Queirós e a Deus graças por dos mais escritores portugueses conhecerem tão pouco." Como eu disse, quem procura, acha. Chamou-nos de ignorantes, com certeza por achar que nunca ouvíramos falar num Valter Hugo Mãe, Lídia Jorge, Antônio Lobo Antunes, José Rodrigues dos Santos e tantos outros. Confesso que só li livros do primeiro e do terceiro da lista e gostei muito.

Bem, voltando à birra de Saramago, no artigo ele prossegue atirando pedrinhas nos irmãos e primos brasileiros. E afirma que se nós chamamos Fernando Pessoa "grande poeta da língua portuguesa" é porque nós o desejaríamos nosso. E arremata: "Bom proveito, então lhes faça"... Não é birrentinho? Mas, depois ameniza, afirmando: "Também eu desejaria que Manuel Bandeira fosse meu"... Ah! Esse José Saramago: "Tomem pois os Brasileiros para si Fernando Pessoa, que não ficaremos mais pobres por isso."

Pensa que acabou a pendenga? Não. Com sua prosa candente (ele é muito bom, escreve lindamente) afirma que "essa cultura que a língua portuguesa é o veículo e o instrumento não principiou no dia 7 de setembro de 1822", para trás não havia só caos, brutalidade, mas um formigueiro cultural de 700 anos. Sabemos disso, Saramago.

Não queremos roubar-lhe Fernando Pessoa, só compartilhá-lo. O dia 6 de setembro, como o laureado escritor diz, não é anterior à criação do mundo. Como o senhor mesmo admite: "Brasil e Portugal vão, cada um por seu pé, aonde tiverem de ir, chegarão aonde puderem chegar, felizes ou apenas resignados."

Embora o senhor já esteja encantado, vamos fazer as pazes? Não nos queira mal, Saramago. Se depender de mim, não vou raptar ninguém de sua terra! Vou apenas admirá-los. Amarei sempre os portugueses e, aproveitando-me do "seu" Lobo Antunes, enviar-lhes-ei e "comerei beijos como quem come sopa, e palitarei as gengivas no fim para extrair dos molares restos incômodos de ternura"... Está bom assim?

A autora é pedagoga, jornalista, advogada, professora doutora aposentada da Unesp - [email protected]





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